Havia uma corça incendiada nas metáforas de então
- por dentro do sonho por dentro da semente
muitas vezes irmãos e madrugadas conviviam no verso
e apertávamos o nó da garganta no lugar da gravata.
Sugeríamos flores, vermelhas e livres de preferência.
Fe-lo-res, soletrávamos, trinávamos, mais e mais futuro.
Confundíamos já com amanhãs, o tempo era imortal como nós éramos
- jovens em abril.
Por tanto gastámos, meu amor, as ruas, as gaivotas e os poemas justos.
Ficámos com uma história difícil para contar.
a letra incerta
segunda-feira, 3 de março de 2014
domingo, 16 de fevereiro de 2014
araial 10
Não requer um engenho extraordinário pôr palavras a seguir a outras palavras, em fila ou par
tidas
ou em espiral.
É uma geometria, como outra qualquer.
Tem tantos sentidos quantos quisermos encontrar (por falta de sentido não havemos de morrer). É também um bonito exercício de desenho abstracto. Natureza viva, Times New Roman 12.
tidas
ou em espiral.
É uma geometria, como outra qualquer.
Tem tantos sentidos quantos quisermos encontrar (por falta de sentido não havemos de morrer). É também um bonito exercício de desenho abstracto. Natureza viva, Times New Roman 12.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
o interruptor
- Mesmo o que fazia falta, um interruptor de sentidos, disse o inventor.
- Quanto custa, perguntou o ministro.
- Ofereço-lho. Também vou oferecê-lo aos outros cidadãos, não ia agora discriminar vossa excelência.
- E funciona? Assim de borla custa a crer.
- Ora experimente.
Depois de ter interrompido, à vez, a visão, a audição, o tacto e por aí adiante, o ministro devolveu o aparelho ao inventor.
- Não me serve para nada, consigo muito bem interromper tudo sozinho.
O inventor sorriu.
- Já calculava, por isso preveni-me. Eis o interruptor de ministros. Com a permissão de vossa excelência, plim, está interrompido.
- Quanto custa, perguntou o ministro.
- Ofereço-lho. Também vou oferecê-lo aos outros cidadãos, não ia agora discriminar vossa excelência.
- E funciona? Assim de borla custa a crer.
- Ora experimente.
Depois de ter interrompido, à vez, a visão, a audição, o tacto e por aí adiante, o ministro devolveu o aparelho ao inventor.
- Não me serve para nada, consigo muito bem interromper tudo sozinho.
O inventor sorriu.
- Já calculava, por isso preveni-me. Eis o interruptor de ministros. Com a permissão de vossa excelência, plim, está interrompido.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
les ailes dans la mer
j'ai plongé mes ailes dans la mer
et je suis devenue
le poisson merveilleux
qui n'a besoin de rien sauf
le désire
pour être libre
et je suis devenue
le poisson merveilleux
qui n'a besoin de rien sauf
le désire
pour être libre
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
uns sapatos às riscas
Estou a pintar os meus sapatos de vermelho e as riscas intrometem-se. O pincel vai e vem, mas quando chega à biqueira já o calcanhar se pôs a azular, ou mesmo a empardecer como se quilómetros o tivessem desgastado. É arreliante não conseguir que a cor se espalhe por igual, como pretendia, num capricho nem sequer metafórico (não quero os pés em sangue). Talvez a qualidade da tinta deixe muito a desejar. Que possa desejar uns sapatos às riscas, eis o que desejo, por ora.
sábado, 11 de janeiro de 2014
como viver
filmar o que não se vê
escrever o que não tem nome
invocar o concreto
esquecer o chão
assim talvez se consiga viver
escrever o que não tem nome
invocar o concreto
esquecer o chão
assim talvez se consiga viver
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
chegada a Herivan
Como chegar a Herivan?
Os sinos tocam boas-vindas, afastam as desgraças soprando-as para bem longe, espalham no chão pétalas macias. O coro dos inocentes afina as vozes, o rio segue o rasto dos navios.
Eu ouço-os e caminho. Os pés leves e rápidos não pedem para descansar. Os ouvidos recusam outros sons, concentram-se naqueles que os aproximam da cidade.
Perigos espreitam das árvores e da fúria dos céus. Outros, rasteiros, tentam trepar-me pelo corpo. Não faço caso, prossigo a caminhada a um ritmo invejável.
Há séculos e mundos que os sinos se aproximam, que as pétalas macias espalham o aroma cada vez mais tentador.
O caminho alonga-se, devo estar a envelhecer. O coro dos inocentes segue o rasto do rio.
Como chegar a Herivan?
Os sinos tocam boas-vindas, afastam as desgraças soprando-as para bem longe, espalham no chão pétalas macias. O coro dos inocentes afina as vozes, o rio segue o rasto dos navios.
Eu ouço-os e caminho. Os pés leves e rápidos não pedem para descansar. Os ouvidos recusam outros sons, concentram-se naqueles que os aproximam da cidade.
Perigos espreitam das árvores e da fúria dos céus. Outros, rasteiros, tentam trepar-me pelo corpo. Não faço caso, prossigo a caminhada a um ritmo invejável.
Há séculos e mundos que os sinos se aproximam, que as pétalas macias espalham o aroma cada vez mais tentador.
O caminho alonga-se, devo estar a envelhecer. O coro dos inocentes segue o rasto do rio.
Como chegar a Herivan?
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