sábado, 23 de novembro de 2013

no aniversário de Herberto Helder

Quando, numa estação de comboio
bichos apressados, garrafas partidas, o cheiro quotidiano da ruína
a voz se esgueira para a última carruagem, a que há-de chegar ao lado oposto com o rigor insurrecto da infância.  

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

receita para durar um dia inteiro

Três asas de frango, um iogurte, uma caixa de fósforos, um sabonete, um pacote de estrelinhas.
Põe-se a água a correr, leva-se o corpo para debaixo do chuveiro sem ligar aos arrepios, esfrega-se rapidamente com o sabonete e ainda mais depressa com a toalha. Espirra-se. Deitam-se estrelinhas na tigela, mistura-se o iogurte, mastiga-se a correr, respira-se fundo. Enfrenta-se a manhã. Seguidamente enfrenta-se a tarde. Engana-se o estômago com água da torneira. Vira-se o percurso ao contrário até escurecer. Acende-se um fósforo e com ele a vela e o fogão. Reserva-se a vela. Cuidado para que as asas de frango não se ponham a voar enquanto cozem. Reservam-se as estrelinhas para o dia seguinte, tendo atenção ao fecho hermético do pacote para não brilharem na noite nem em sonhos. Apaga-se a vela e espera-se que escureça. Depois que escureça ainda mais.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

o caminheiro e o ermitão

Perde-se muita fé, quando se anda pelo mundo, disse o caminheiro.
Por isso é que estou aqui, nesta ermida  solitária, há tantos anos, respondeu o ermitão.
Valeu a pena, perguntou o caminheiro, sorvendo a sopa.
Valeu, posto que um peregrino veio até mim, procurando conversão.
Procurei uma sopa, e agora me vou, por via de outra, noutro sítio qualquer.
Leve um pouco da fé que tanto me custou a ganhar, tenho-a de sobra.
Fique com ela, amigo, para quando os sítios e os caminhos e a força dos pés se lhe acabarem, disse o caminheiro.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013