Antes das tuas penas, antes das tuas garras, tinha o desejo de voar.
Agora, aqui do alto, não sinto desejo algum.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
os barulhos
São quase sempre coisas que viajam, os barulhos: aviões, comboios, corpos a cair, vozes que se quer ouvir ao longe. Nascem do movimento da terra, que não faz barulho algum. Assim como eu e tu: tu viajas pelos caminhos do mundo, eu movo-me em elipses, sabe-se lá para onde.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
alguns dos meus momentos favoritos
a colherinha de geleia da minha avó, as viagens no comboinho da praia da Costa da Caparica, as amendoeiras em flor, um livro novo do Heberto, o nascer do sol no mar, sonhos bons, um dia sem horários. A lista podia continuar mas não seria sério. A lista foi feita só para anteceder uma certa voz.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
lágrima artificial
A minha oftalmologista receitou-me lágrimas artificiais. Há quanto tempo é que não chora, perguntou-me ela, intrigada com esta felicidade nunca vista. Puxei pela cabeça, tentando recordar a última vez que assisti a um desses filmes de partir o coração, estilo As Pontes de Madison County (lembrei-me deste por tê-lo encontrado num conto de Alice Munro, quando ontem folheava O Amor de Uma Boa Mulher, para celebrar o Nobel). Há muito tempo que não me comovem o amor contrafeito ou a criança perdida (todos os dias se perdem crianças na minha vida). Caixões em Lampedusa, venenos na Síria, pobres em Portugal, imagens que se engolem umas às outras segundo as regras da crueldade oficial. Nada que suscite uma boa cena de pranto, nem um discreto marejar.
A minha oftalmologista entendeu que não é saudável viver assim, tão estoicamente. Vai daí, receitou-me lágrimas artificiais, a ver se pareço mais sensível no retrato emoldurado. Vou comprar dois ou três frascos de uma vez.
A minha oftalmologista entendeu que não é saudável viver assim, tão estoicamente. Vai daí, receitou-me lágrimas artificiais, a ver se pareço mais sensível no retrato emoldurado. Vou comprar dois ou três frascos de uma vez.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
gente que estragas o mapa
Extinguir um povo para preservar um território? Limpar o mapa da gente que estraga o desenho das avenidas, do extenso litoral? (há quem se dedique a espezinhar os sulcos ampliados pelo google maps, ele há gente para tudo). Avivar as cores dos rios, pintar de branco o cume das serras, agigantar as ondas. Agora percebo melhor o Huellebeck, o que me queria dizer quando escreveu O Mapa e o Território e porque se se deteve na cena do horror. Aprende-se muito, a passear sobre o gume das espadas. Sobretudo a não desconfiar dos exageros, nunca nos desiludem
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
coração como coração
Tenho um coração que parece mesmo um coração. Dois ventrículos e duas aurículas que pulsam à vez, como os de uma ecocardiografia. Vermelho como os corações desenhados nos livros de anatomia. Até parecido com os corações de filigrana da Joana Vasconcelos. O meu coração bate ora lento ora veloz, arrítmico ou nem tanto, como um coração de verdade.
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