Nada perturba o sapato escondido debaixo da cama. Nem ele dará pelos séculos nem os séculos por ele. Que bela vida eterna. Debaixo da cama é o céu do meu sapato.
Às vezes ajoelho-me, torço-me toda e ponho-me a espreitá-lo. No escuro, nem o pó o desfeia.
Quando eu já não puder olhar para debaixo da cama, além de incólume ficará livre.
Um sapato só, sem outro que o inveje.
sábado, 28 de setembro de 2013
sábado, 21 de setembro de 2013
nunca te encostes à verdade
Quando a verdade se engana, pede à mentira que lhe guarde o lugar e vai espairecer.
Por vezes nada no mar um dia inteiro, pensando que preferia pôr preto no branco os múltiplos tons desse deslize
e dos percalços em que forçosamente ainda iria tropeçar.
À volta é recebida pela mentira com meiguice. Bem-vinda, diz-lhe a falsa, não te acanhes se precisares de mim, estou sempre ali à espreita, no passeio da esquina.
Por vezes nada no mar um dia inteiro, pensando que preferia pôr preto no branco os múltiplos tons desse deslize
e dos percalços em que forçosamente ainda iria tropeçar.
À volta é recebida pela mentira com meiguice. Bem-vinda, diz-lhe a falsa, não te acanhes se precisares de mim, estou sempre ali à espreita, no passeio da esquina.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
a osga e a parede
Como é que se cura o frio, pergunta a osga.
Como é que o calor se despe, responde a parede.
Experimenta moveres-te um pouco para a direita, incita a osga.
E o sol não virá atrás de mim, desconfia a parede.
Quando o sol te apanhar foges outra vez, sugere a osga.
Assim viveram sossegadamente desconfortáveis para sempre, a osga aguardando a nesga de sol quotidiano, a parede aos saltinhos, sem conseguir mudar de pele.
Como é que o calor se despe, responde a parede.
Experimenta moveres-te um pouco para a direita, incita a osga.
E o sol não virá atrás de mim, desconfia a parede.
Quando o sol te apanhar foges outra vez, sugere a osga.
Assim viveram sossegadamente desconfortáveis para sempre, a osga aguardando a nesga de sol quotidiano, a parede aos saltinhos, sem conseguir mudar de pele.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
cantar da gente no lixo
oh oh oh já cá estamos em baixo
no meio do lixo
oh vi uma ratazana a passar, com um talo de couve nos dentes
lesmas e caroços de pêssegos, quem não gosta deles
ui que bela comichão fazem as tripas de faisão
como nos sai fino o assobio entre baforadas de bafio
oh oh oh daqui já não saímos
nem vivos nem mortos, gostamos dos ares
bailemos ao sabor da água podre
que bem se dorme nesta cama azeda
no meio do lixo
oh vi uma ratazana a passar, com um talo de couve nos dentes
lesmas e caroços de pêssegos, quem não gosta deles
ui que bela comichão fazem as tripas de faisão
como nos sai fino o assobio entre baforadas de bafio
oh oh oh daqui já não saímos
nem vivos nem mortos, gostamos dos ares
bailemos ao sabor da água podre
que bem se dorme nesta cama azeda
domingo, 8 de setembro de 2013
ai o fado
As pessoas continuam aqui. Cantam, rezam, suspiram.
O país, o território, o sentido de pertença, é que se afastam.
Não se despedem, apenas se ouvem cada vez mais ao longe. Aparentam falar muito alto, enquanto se afastam, talvez gritem. Estão muito zangados. Mas o eco só devolve guinchos fracos - ratos a deixarem o navio.
O navio são as pessoas. Aqui ficam, com as nuvens e um tempo irreparável pela frente.
(os que se foram embora antes do território são perseguidos por ele, pelos gritos mudos; nem ao mar nem às nuvens pretendem voltar).
Continuam aqui, demasiado tristes para se enfurecerem. Tão tristes tão tristes que em breve sentirão a felicidade da tristeza. Pegarão na guitarra e no xaile negro, aplaudirão. Aiiiiiii o fado.
O país, o território, o sentido de pertença, é que se afastam.
Não se despedem, apenas se ouvem cada vez mais ao longe. Aparentam falar muito alto, enquanto se afastam, talvez gritem. Estão muito zangados. Mas o eco só devolve guinchos fracos - ratos a deixarem o navio.
O navio são as pessoas. Aqui ficam, com as nuvens e um tempo irreparável pela frente.
(os que se foram embora antes do território são perseguidos por ele, pelos gritos mudos; nem ao mar nem às nuvens pretendem voltar).
Continuam aqui, demasiado tristes para se enfurecerem. Tão tristes tão tristes que em breve sentirão a felicidade da tristeza. Pegarão na guitarra e no xaile negro, aplaudirão. Aiiiiiii o fado.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
as raparigas nas capas das revistas
o rosto raso
(boca entreaberta
dentes aparados
olhos vazados por balas invisíveis)
na capa das revistas
as raparigas não fazem sombra
não se rendem ao sol
não brotam em flor
abrem-se a uma luz
mortal
(boca entreaberta
dentes aparados
olhos vazados por balas invisíveis)
na capa das revistas
as raparigas não fazem sombra
não se rendem ao sol
não brotam em flor
abrem-se a uma luz
mortal
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