Como chegar a Herivan?
Os sinos tocam boas-vindas, afastam as desgraças soprando-as para bem longe, espalham no chão pétalas macias. O coro dos inocentes afina as vozes, o rio segue o rasto dos navios.
Eu ouço-os e caminho. Os pés leves e rápidos não pedem para descansar. Os ouvidos recusam outros sons, concentram-se naqueles que os aproximam da cidade.
Perigos espreitam das árvores e da fúria dos céus. Outros, rasteiros, tentam trepar-me pelo corpo. Não faço caso, prossigo a caminhada a um ritmo invejável.
Há séculos e mundos que os sinos se aproximam, que as pétalas macias espalham o aroma cada vez mais tentador.
O caminho alonga-se, devo estar a envelhecer. O coro dos inocentes segue o rasto do rio.
Como chegar a Herivan?
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
sábado, 23 de novembro de 2013
no aniversário de Herberto Helder
Quando, numa estação de comboio
bichos apressados, garrafas partidas, o cheiro quotidiano da ruína
a voz se esgueira para a última carruagem, a que há-de chegar ao lado oposto com o rigor insurrecto da infância.
bichos apressados, garrafas partidas, o cheiro quotidiano da ruína
a voz se esgueira para a última carruagem, a que há-de chegar ao lado oposto com o rigor insurrecto da infância.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
receita para durar um dia inteiro
Três asas de frango, um iogurte, uma caixa de fósforos, um sabonete, um pacote de estrelinhas.
Põe-se a água a correr, leva-se o corpo para debaixo do chuveiro sem ligar aos arrepios, esfrega-se rapidamente com o sabonete e ainda mais depressa com a toalha. Espirra-se. Deitam-se estrelinhas na tigela, mistura-se o iogurte, mastiga-se a correr, respira-se fundo. Enfrenta-se a manhã. Seguidamente enfrenta-se a tarde. Engana-se o estômago com água da torneira. Vira-se o percurso ao contrário até escurecer. Acende-se um fósforo e com ele a vela e o fogão. Reserva-se a vela. Cuidado para que as asas de frango não se ponham a voar enquanto cozem. Reservam-se as estrelinhas para o dia seguinte, tendo atenção ao fecho hermético do pacote para não brilharem na noite nem em sonhos. Apaga-se a vela e espera-se que escureça. Depois que escureça ainda mais.
Põe-se a água a correr, leva-se o corpo para debaixo do chuveiro sem ligar aos arrepios, esfrega-se rapidamente com o sabonete e ainda mais depressa com a toalha. Espirra-se. Deitam-se estrelinhas na tigela, mistura-se o iogurte, mastiga-se a correr, respira-se fundo. Enfrenta-se a manhã. Seguidamente enfrenta-se a tarde. Engana-se o estômago com água da torneira. Vira-se o percurso ao contrário até escurecer. Acende-se um fósforo e com ele a vela e o fogão. Reserva-se a vela. Cuidado para que as asas de frango não se ponham a voar enquanto cozem. Reservam-se as estrelinhas para o dia seguinte, tendo atenção ao fecho hermético do pacote para não brilharem na noite nem em sonhos. Apaga-se a vela e espera-se que escureça. Depois que escureça ainda mais.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
o caminheiro e o ermitão
Perde-se muita fé, quando se anda pelo mundo, disse o caminheiro.
Por isso é que estou aqui, nesta ermida solitária, há tantos anos, respondeu o ermitão.
Valeu a pena, perguntou o caminheiro, sorvendo a sopa.
Valeu, posto que um peregrino veio até mim, procurando conversão.
Procurei uma sopa, e agora me vou, por via de outra, noutro sítio qualquer.
Leve um pouco da fé que tanto me custou a ganhar, tenho-a de sobra.
Fique com ela, amigo, para quando os sítios e os caminhos e a força dos pés se lhe acabarem, disse o caminheiro.
Por isso é que estou aqui, nesta ermida solitária, há tantos anos, respondeu o ermitão.
Valeu a pena, perguntou o caminheiro, sorvendo a sopa.
Valeu, posto que um peregrino veio até mim, procurando conversão.
Procurei uma sopa, e agora me vou, por via de outra, noutro sítio qualquer.
Leve um pouco da fé que tanto me custou a ganhar, tenho-a de sobra.
Fique com ela, amigo, para quando os sítios e os caminhos e a força dos pés se lhe acabarem, disse o caminheiro.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
terça-feira, 29 de outubro de 2013
antes
Antes das tuas penas, antes das tuas garras, tinha o desejo de voar.
Agora, aqui do alto, não sinto desejo algum.
Agora, aqui do alto, não sinto desejo algum.
sábado, 26 de outubro de 2013
os barulhos
São quase sempre coisas que viajam, os barulhos: aviões, comboios, corpos a cair, vozes que se quer ouvir ao longe. Nascem do movimento da terra, que não faz barulho algum. Assim como eu e tu: tu viajas pelos caminhos do mundo, eu movo-me em elipses, sabe-se lá para onde.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
alguns dos meus momentos favoritos
a colherinha de geleia da minha avó, as viagens no comboinho da praia da Costa da Caparica, as amendoeiras em flor, um livro novo do Heberto, o nascer do sol no mar, sonhos bons, um dia sem horários. A lista podia continuar mas não seria sério. A lista foi feita só para anteceder uma certa voz.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
lágrima artificial
A minha oftalmologista receitou-me lágrimas artificiais. Há quanto tempo é que não chora, perguntou-me ela, intrigada com esta felicidade nunca vista. Puxei pela cabeça, tentando recordar a última vez que assisti a um desses filmes de partir o coração, estilo As Pontes de Madison County (lembrei-me deste por tê-lo encontrado num conto de Alice Munro, quando ontem folheava O Amor de Uma Boa Mulher, para celebrar o Nobel). Há muito tempo que não me comovem o amor contrafeito ou a criança perdida (todos os dias se perdem crianças na minha vida). Caixões em Lampedusa, venenos na Síria, pobres em Portugal, imagens que se engolem umas às outras segundo as regras da crueldade oficial. Nada que suscite uma boa cena de pranto, nem um discreto marejar.
A minha oftalmologista entendeu que não é saudável viver assim, tão estoicamente. Vai daí, receitou-me lágrimas artificiais, a ver se pareço mais sensível no retrato emoldurado. Vou comprar dois ou três frascos de uma vez.
A minha oftalmologista entendeu que não é saudável viver assim, tão estoicamente. Vai daí, receitou-me lágrimas artificiais, a ver se pareço mais sensível no retrato emoldurado. Vou comprar dois ou três frascos de uma vez.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
gente que estragas o mapa
Extinguir um povo para preservar um território? Limpar o mapa da gente que estraga o desenho das avenidas, do extenso litoral? (há quem se dedique a espezinhar os sulcos ampliados pelo google maps, ele há gente para tudo). Avivar as cores dos rios, pintar de branco o cume das serras, agigantar as ondas. Agora percebo melhor o Huellebeck, o que me queria dizer quando escreveu O Mapa e o Território e porque se se deteve na cena do horror. Aprende-se muito, a passear sobre o gume das espadas. Sobretudo a não desconfiar dos exageros, nunca nos desiludem
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
coração como coração
Tenho um coração que parece mesmo um coração. Dois ventrículos e duas aurículas que pulsam à vez, como os de uma ecocardiografia. Vermelho como os corações desenhados nos livros de anatomia. Até parecido com os corações de filigrana da Joana Vasconcelos. O meu coração bate ora lento ora veloz, arrítmico ou nem tanto, como um coração de verdade.
sábado, 28 de setembro de 2013
o sapato feliz
Nada perturba o sapato escondido debaixo da cama. Nem ele dará pelos séculos nem os séculos por ele. Que bela vida eterna. Debaixo da cama é o céu do meu sapato.
Às vezes ajoelho-me, torço-me toda e ponho-me a espreitá-lo. No escuro, nem o pó o desfeia.
Quando eu já não puder olhar para debaixo da cama, além de incólume ficará livre.
Um sapato só, sem outro que o inveje.
Às vezes ajoelho-me, torço-me toda e ponho-me a espreitá-lo. No escuro, nem o pó o desfeia.
Quando eu já não puder olhar para debaixo da cama, além de incólume ficará livre.
Um sapato só, sem outro que o inveje.
sábado, 21 de setembro de 2013
nunca te encostes à verdade
Quando a verdade se engana, pede à mentira que lhe guarde o lugar e vai espairecer.
Por vezes nada no mar um dia inteiro, pensando que preferia pôr preto no branco os múltiplos tons desse deslize
e dos percalços em que forçosamente ainda iria tropeçar.
À volta é recebida pela mentira com meiguice. Bem-vinda, diz-lhe a falsa, não te acanhes se precisares de mim, estou sempre ali à espreita, no passeio da esquina.
Por vezes nada no mar um dia inteiro, pensando que preferia pôr preto no branco os múltiplos tons desse deslize
e dos percalços em que forçosamente ainda iria tropeçar.
À volta é recebida pela mentira com meiguice. Bem-vinda, diz-lhe a falsa, não te acanhes se precisares de mim, estou sempre ali à espreita, no passeio da esquina.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
a osga e a parede
Como é que se cura o frio, pergunta a osga.
Como é que o calor se despe, responde a parede.
Experimenta moveres-te um pouco para a direita, incita a osga.
E o sol não virá atrás de mim, desconfia a parede.
Quando o sol te apanhar foges outra vez, sugere a osga.
Assim viveram sossegadamente desconfortáveis para sempre, a osga aguardando a nesga de sol quotidiano, a parede aos saltinhos, sem conseguir mudar de pele.
Como é que o calor se despe, responde a parede.
Experimenta moveres-te um pouco para a direita, incita a osga.
E o sol não virá atrás de mim, desconfia a parede.
Quando o sol te apanhar foges outra vez, sugere a osga.
Assim viveram sossegadamente desconfortáveis para sempre, a osga aguardando a nesga de sol quotidiano, a parede aos saltinhos, sem conseguir mudar de pele.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
cantar da gente no lixo
oh oh oh já cá estamos em baixo
no meio do lixo
oh vi uma ratazana a passar, com um talo de couve nos dentes
lesmas e caroços de pêssegos, quem não gosta deles
ui que bela comichão fazem as tripas de faisão
como nos sai fino o assobio entre baforadas de bafio
oh oh oh daqui já não saímos
nem vivos nem mortos, gostamos dos ares
bailemos ao sabor da água podre
que bem se dorme nesta cama azeda
no meio do lixo
oh vi uma ratazana a passar, com um talo de couve nos dentes
lesmas e caroços de pêssegos, quem não gosta deles
ui que bela comichão fazem as tripas de faisão
como nos sai fino o assobio entre baforadas de bafio
oh oh oh daqui já não saímos
nem vivos nem mortos, gostamos dos ares
bailemos ao sabor da água podre
que bem se dorme nesta cama azeda
domingo, 8 de setembro de 2013
ai o fado
As pessoas continuam aqui. Cantam, rezam, suspiram.
O país, o território, o sentido de pertença, é que se afastam.
Não se despedem, apenas se ouvem cada vez mais ao longe. Aparentam falar muito alto, enquanto se afastam, talvez gritem. Estão muito zangados. Mas o eco só devolve guinchos fracos - ratos a deixarem o navio.
O navio são as pessoas. Aqui ficam, com as nuvens e um tempo irreparável pela frente.
(os que se foram embora antes do território são perseguidos por ele, pelos gritos mudos; nem ao mar nem às nuvens pretendem voltar).
Continuam aqui, demasiado tristes para se enfurecerem. Tão tristes tão tristes que em breve sentirão a felicidade da tristeza. Pegarão na guitarra e no xaile negro, aplaudirão. Aiiiiiii o fado.
O país, o território, o sentido de pertença, é que se afastam.
Não se despedem, apenas se ouvem cada vez mais ao longe. Aparentam falar muito alto, enquanto se afastam, talvez gritem. Estão muito zangados. Mas o eco só devolve guinchos fracos - ratos a deixarem o navio.
O navio são as pessoas. Aqui ficam, com as nuvens e um tempo irreparável pela frente.
(os que se foram embora antes do território são perseguidos por ele, pelos gritos mudos; nem ao mar nem às nuvens pretendem voltar).
Continuam aqui, demasiado tristes para se enfurecerem. Tão tristes tão tristes que em breve sentirão a felicidade da tristeza. Pegarão na guitarra e no xaile negro, aplaudirão. Aiiiiiii o fado.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
as raparigas nas capas das revistas
o rosto raso
(boca entreaberta
dentes aparados
olhos vazados por balas invisíveis)
na capa das revistas
as raparigas não fazem sombra
não se rendem ao sol
não brotam em flor
abrem-se a uma luz
mortal
(boca entreaberta
dentes aparados
olhos vazados por balas invisíveis)
na capa das revistas
as raparigas não fazem sombra
não se rendem ao sol
não brotam em flor
abrem-se a uma luz
mortal
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
a água, o amor, quanto?
2€
7€
200++++++€
4 cêntimos e meio
0,000000000000000000001
quanto custa?
a água, a água do rio e a onda do mar, o amor, a batata, a nona sinfonia, um suspiro
(a tua água, o teu amor, a tua nona sinfonia - e os meus)
quanto?
Inventa números, diz um ao acaso. A resposta certa é:
De mais
7€
200++++++€
4 cêntimos e meio
0,000000000000000000001
quanto custa?
a água, a água do rio e a onda do mar, o amor, a batata, a nona sinfonia, um suspiro
(a tua água, o teu amor, a tua nona sinfonia - e os meus)
quanto?
Inventa números, diz um ao acaso. A resposta certa é:
De mais
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
aeroportos
Nos aeroportos os nomes das pessoas misturam-se com os nomes das cidades. Preparam-se para voar, uns com os outros, provisoriamente aliados contra o tempo.
domingo, 18 de agosto de 2013
tu e o justo
Estás aí em baixo, tudo o que se te exige é justo.
Tens de manter-te de pé, se vacilares é justo que caias.
Olhas em redor à procura de ajuda, será justo não a encontrares ao
nível dos teus olhos.
Se olhares para cima estás perdido, aí moram os que se ocupam da
justiça, não de ti.
Olhar para o chão pode trazer uma recompensa, as migalhas ficam mais
próximas de ti, e isso é justo.
sábado, 17 de agosto de 2013
a verdade
A verdade é um cu-de-boi.
A verdade altera a ordem de grandezas, o sino alto repica e ela mora
mais alto ainda e não há escada que lhe chegue.
A verdade lamenta-se por tudo e por nada, nem sempre tem razão.
A verdade nunca chega a horas e, quando chega, não é ela.
Olhei a verdade e sorri. Desta vez desmascarei-te, disse eu. Ela
sorriu de volta, tinha a face mais bela que alguém pode sonhar. Mas
estava muito cansada, adormeceu num instante.
A verdade ia a passear num denso bosque e chamaram por ela.
Assustou-se tanto que se transformou na raiz de uma árvore.
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