sexta-feira, 11 de outubro de 2013

lágrima artificial

A minha oftalmologista receitou-me lágrimas artificiais. Há quanto tempo é que não chora, perguntou-me ela, intrigada com esta felicidade nunca vista. Puxei pela cabeça, tentando recordar a última vez que assisti a um desses filmes de partir o coração, estilo As Pontes de Madison County (lembrei-me deste por tê-lo encontrado num conto de Alice Munro, quando ontem folheava O Amor de Uma Boa Mulher, para celebrar o Nobel). Há muito tempo que não me comovem o amor contrafeito ou a criança perdida (todos os dias se perdem crianças na minha vida). Caixões em Lampedusa, venenos na Síria, pobres em Portugal, imagens que se engolem umas às outras segundo as regras da crueldade oficial. Nada que suscite uma boa cena de pranto, nem um discreto marejar.
A minha oftalmologista entendeu que não é saudável viver assim, tão estoicamente. Vai daí, receitou-me lágrimas artificiais, a ver se pareço mais sensível no retrato emoldurado. Vou comprar dois ou três frascos de uma vez.

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